15.8.07

Segundos Sentidos I

(quaisquer semelhanças com outras estórias não são coincidência)

Joanna Palmer não conhecia a cachoeira. Tinha vindo ali parar num daqueles finais de manhã que tanto gostava de passar a deambular sem rumo por paisagens exóticas. No meio de uma vegetação densa e tropical, tinha pasmado com a mega massa de água que rebentava de um percurso rigorosamente vertical com metros a perder de vista.
Sem saber bem como, tinha atravessado a densa cortina e descoberto a gruta. Pasmou com a quietude fresca do local, ensurdecendo pelo rumor da água em cachos.
Mal refeita da descoberta, viu nos olhos desenhado o vulto de uma figura feminina franzina e delicada. Cumprimentaram-se.
Yazmin Yang era conhecida do paraíso escondido. Ali se derramava, desligada, quando a alma lho pedia. Raramente via alguém por aquelas bandas. Estranhou a chegada impetuosa e descuidada de Joanna, e ficou, tranquila, a admirar o corpo de uma mulher imensa, rosada, assustada.
Yazmin convidou Joanna a visitar a gruta, recanto atrás de recanto, nenúfar após nenúfar. Criaturas disformes modelavam a pedra, húmida e quente, fazendo do lugar uma espécie de estância termal cavada no estômago do mundo. Passearam as duas sem pressas e sem conversas de circunstância, até voltarem ao ponto onde Joanna aterrara.
Junto à massa imensa de água, Yazmin dobrou-se sobre os joelhos, em postura de reverência, convidativa. Joanna repousou o seu corpo generoso diante dela, e espreguiçou. Yazmin começou a massajar com ternura o corpo da visitante inesperada, sem permissão nem aviso. Sentia o consentimento, e os seus dedos pequenos e vigorosos passeavam-se por formas longas e macias, chegando a cada fronteira sem sequer ter passaporte. O corpo relaxado de Joanna dançava com o som da água, e estremecia com a sabedoria das mãos alheias e amigas.
Horas passaram as duas, numa lânguida entrega tácita, até se confundirem uma e outra. Corpos desiguais, peles diferentes, falavam a mesma linguagem de prazer. Suadas e escorridas pela humidade da gruta, arfaram juntas e suspiraram em uníssono.
Tal como chegara, Joanna partira. Levantara-se bruscamente, e voara em direcção à massa gigantesca de água sem nada dizer, por onde desaparecera o seu farto vulto. Yazmin ficara imóvel, de paz consigo e com os deuses, sorrindo grata à vida.

À mesma hora, em Liverpool, Mary Ann Hamilton, doméstica e mãe de quatro rosadas crianças, ficava impávida a olhar para o seu laptop. Tremiam-lhe os joelhos, mas não os pensamentos. Esses, tinham ficado espreguiçados numa gruta de nenhures. Nessa noite, depois da ceia e do correrio a deitar a miudagem, Mary Ann deitou-se delicadamente na cama encostado ao marido, como há 14 anos religiosamente fazia. Nessa noite, os gestos dele foram punhaladas. As mãos calejadas do homem passaram a ser agulhas no corpo franzino de Mary Ann, que, desde esse dia, só sonhava com massagens.

À mesma hora, em São Paulo, Joel Marcelo, advogado de renome no Estado, preparava a janta desconcertado. O dia tinha sido intenso de trabalho e papelada, com viagens inesperadas pelo meio. Dotôr Joel cantarolava o anúncio da TV, e assustava-se com a sua voz grave. Zangado com as cordas vocais, abandonou o seu vulto moreno e musculado no sofá, fechou os olhos, e voou até aos corpos dóceis de Yazmin e de Joanna. Foi assim que adormeceu nessas noites.

1 comentário:

mar disse...

Mto bom este post, parab�ns!!!