12.12.07

Uma questão de Personalidade

Sarah 'Intellagirl' Robbins é uma polémica residente de Second Life, investigadora e professora na Ball State University (podem saber mais sobre ela aqui, aqui ou até aqui), e Director of Emerging Technologies na Media Sauce.

Além disso, Sarah é uma das dinamizadoras da mailing list de educadores em Second Life.
Por essa via, tive acesso à transcrição de um seu recente diálogo com um interlocutor não identificado, e que me pareceu pertinente reproduzir aqui.

O assunto: Como se expressa a personalidade de um avatar em Second Life? E num MMORPG (jogo online multi-utilizador, como World of Warcraft, por exemplo)?

A conversa parece ter sido acalorada, e, esgrimidos os argumentos, fica mais um tema para reflexão para quem se interessa por estas questões da auto-representação em 'mundos virtuais'...

"Sarah: Second Life tem melhores mecanismos para expressar personalidade e identidade que WOW, LOTRO, Hellgate ou outros MMORPGs...

Interlocutor: Não. Os sistemas como os MMORPGs que oferecem identidades físicas finitas, permitem criar avatares com mais significado, porque as armaduras, as classes de personagens, etc, exprimem mensagens mais profundamente entendidas. Quando dispões de escolhas infinitas, a tua escolha não tem significado.

Sarah: Mas o teu nível da tua armadura permite perceber que cumpriste uma missão, mas não me diz nada sobre o gozo que tiveste, nem se és credível ou criativo.

Interlocutor: O cabelo rosa do teu avatar também não é uma garantia de que podes criar conteúdos. Apenas me diz que podes gastar dinheiro. É como usar sinais exteriores de riqueza na RL para exibir a tua 'personalidade'.

Sarah: E se tiver sido eu a criar o cabelo do meu avatar?

Interlocutor: Eu não sei se foste tu que o criaste ou não quando olho para ti, por isso não importa...

Sarah: Tal como eu não sei se não terás comprado a armadura que dizes que ganhaste...

Interlocutor: Mas é muito mais provável que a tenha ganho...

Sarah: Então as escolhas mais limitadas na expressão do teu avatar garantem mais significado a essas expressões? Isso não faz sentido. É o mesmo que dizer que haiku tem mais significado que uma novela apenas porque o escritor está limitado pela forma...

Interlocutor: A pessoas que criaram Miis que se assemelha a Abraham Lincoln demonstram entender melhor o sistema do que aquelas que se parecem a Abraham Lincoln em SL.

Sarah: Então a explicação de quem és num espaço sintético mostra-se pelo teu domínio das ferramentas de expressão nesse espaço?

Interlocutor: Sim. A tua personalidade expressa-se através das tuas escolhas e toda a gente no sistema entende as opções disponíveis. Em SL as opções são infinitas, e perdem significado. (em SL) um 'bom' avatar pode ser a expressão de uma personalidade, mas para isso necesito de ser uma pessoa que sabe como comprar ou pagar a alguém para criar o meu avatar.
(...)
Qual a tua opinião? Penso ser fácil assumir que SL permite aos residentes expressarem-se melhor através de avatares mais flexíveis, mas também entendo alguns dos argumentos do meu interlocutor. Num MMORPG parece que 'vejo' melhor outro avatar porque posso descodificar o significado das suas roupas, por exemplo. Em Second Life é apenas mais um vestido, um fato, uma roupa de marciano, etc."

E vocês? Consideram o 'aspecto' do vosso avatar um factor de credibilidade e de expressão de personalidade em Second Life? Ou acham que, tal como num MMORPG, a possibilidade de uma escolha limitada de avatares (que resulta dos vossos resultados no 'jogo') contribui para uma mais rápida e eficaz percepção da credibilidade e personalidade de um avatar?

4 comentários:

Zeta disse...

A polémica expressa neste diálogo,falha na analise básica da definição de SL enquanto ferramenta de comunicação.
Comparar SL com um MMORPG faz tanto sentido como comparar uma rede de telefone móvel com qualquer um dos serviços suportados por essa mesma rede.
Dentro da grelha SL, e das inumeras grelhas que em poucos anos virão a substituir a actual WEB, poderão já estar alojados todos os jogos atrás referidos.
De facto, nos cerca de 20.000 SIMs existentes actualmente em SL, é fácil encontrar RPs SIMs com argumentos semelhantes.Nem por isso tão concorridos.
A comparação do ambiente SL / Realidade Virtual com um jogo acontece apenas por inexperência, durante a fase inicial de contacto com a nova ferramenta de comunicação. Pela simples razão de que ao novo utilizador faltam pontos de referencia que lhe permitam identificar correctamente a realidade que encontra. A utilização de um computador e de uma personagem digitalizada leva a crêr que se está em...mais um "jogo de PC". O que é errado.
Após essa fase,mais ou menos longa, dependendo da experiência adquirida e invariávelmente, quando a "fantasia" do "jogo" bate á porta da vida real do utilizador; a percepção de SL evolui para a noção de um "outro mundo" ou realidade alternativa.
Como tentativa de racionalisar e conter os eventos "virtuais" daquilo a que estamos acostumados a admitir como realidade.
Principalmente se esses eventos incluirem relacionamentos pessoais emocionais... e as suas habituais consequências ... bem reais.
Mas é outro erro.
SL não é um jogo nem um outro mundo.
É tão só - e já não é pouco - a primeira ferramenta funcional da Realidade Virtual enquanto futuro meio de comunicação global.
Num MMORPG cada utilizador faz do JOGO o melhor aproveitamento possível para alcançar o objectivo final, dentro das regras aceites pelo jogador.Sem que isso venha a ter, normalmente, qualquer influência na sua vida real.
Com SL cada utilizador faz da ferramenta de comunição aquilo de que fôr capaz, nomeadamente jogar MMORPGs se fôr esse o objectivo escolhido, limitado pelas regras que a sua consciência lhe ditar.
E por acção ou omissão, como na vida, as opções que tomar ditarão a evolução da sua própria existência como pessoa.
Porque SL é um utensílio da vida real.
Cada nova tecnologia demora em média 15 anos a ser globalisada.
A realidade virtual enquanto ferramenta de comunicação, irá permitir o acesso generalizado á interactividade total - incluindo a emocional - em tempo real, independentemente do espaço físico.
SL como seu primeiro verdadeiro exemplo pratico de uso generalizado, vai apenas no ano ... 4.
Estamos apenas no início
... do início.

Aprendendo a caminhar num novo ambiente, com espantosas potêncialidades que se descobrem dia a dia.

Daí o meu fascínio por este "novo mundo".


Abraços da Zeta

Personagem já verdadeiramente cyber-humana, directamente do Metaverse .

E em modo de provocação...algo para dar uso ao neurónio:

Seriam os heterónimos de Pessoa simples RPs ?

:)

Paulo Frias disse...

Cara Zeta,
Concordo plenamente com a tua análise. O paralelismo com os RPG's foi provocatório, aliás este diálogo está todo ele 'viciado' pela inadequada 'comparação' entre SL e MMORPG's. No entanto, e tentando esquecer este facto, parece interessante pensar nas questões de credibilidade e de personalidade em SL, que é o que mais me interessa ;)
Ah, e os heterónimos de Pessoa nã eram seguramente 'simples RP's' :).. digo eu!

Zeta disse...

A personalidade e credibilidade pessoal em SL, faz parte de um capítulo da psicología, ainda não escrito, que se virá a chamar qualquer coisa como:

Interacção e comportamento humano em ambientes metafícos.

Porque não existe ainda manual,cada um de nós utilizadores SL/VR, está neste momento a experimentar a prática da futura teoria.
Literalmente: verdadeiros Crash Test Dummies de um novo catálogo de comportamento humano.
Pensar que o afastamento da mimetização da aparência física individual diminui a autenticidade e credibilidade do utilizador é apenas uma apreciação pessoal.
Tão válida como a sua oposta.
Tanto a clonagem da nossa identidade material, como o completo afastamento,passando por todo o tipo de gradientes intermédios,se constituem como comportamentos possíveis em função de interesses legítimos e individuais.
Habitualmente relacionados com o tipo de actividade que se tem na VR e da satisfação pessoal obtida.
No meu caso pessoal, optei por criar diversos avatares / interfaces / ferramentas pessoais, especializados cada um deles em diferentes actividades e interesses que exerço.
Da mesma forma como na vida "real" utilizamos uma camisola para tapar o frio, ou uns calções de banho para ir á praia.
A aproximação com a minha identidade física só me faz sentido desde que a actividade a exercer se complete fora do Ambiente VR.
Fora disso qualquer ligação dos AV's com a "realidade" é apenas uma inútil limitação á liberdade de expressão pessoal e naturalmente, á creatividade.
A aventura na VR, para mim , é também tentar descobrir quão longe se pode ir na exploração dessa liberdade de consciência, num ambiente onde as barreiras físicas não se apresentam como o principal obstáculo.

Paulo Frias disse...

;) mto bem...
escrevamos o capítulo, que atrás vem gente...