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11.7.08

'Second Life está morto?' Outra vez?

Uma vez mais (a pergunta é cíclica) começa a proliferar a grande dúvida pelo ciberespaço: 'Second Life está morto?'

A esta grande dúvida, não é alheio, desta vez, o lançamento de Lively e a campanha agressiva da Google.

Também Robert Bloomfield, no seu excelente blog Metanomics, achou pertinente voltar a lançar a questão, com base no post de Heidi Ballinger, que refere uma notícia de um jornal dinamarquês que Bloomfield fez o favor de traduzir via Google.

O argumento apresentado parece ser o de que 'Second Life não serve para nada...'.
Arrisco acrescentar que 'Second Life não serve para nada... parecido com o que conhecemos!'

A razão de ser desta dúvida existencial permanente (ou cíclica) é muito provavelmente a dificuldade em definir Second Life, levando essa incapacidade a uma irremediável comparação com outros tipos de 'ambientes': redes sociais, videojogos, ambientes de realidade virtual,...!

E, daí, as respostas começam a nascer, óbvias:
- como rede social, SL é ineficaz e complexo
- como videojogo, SL não tem a mínima piada (nem sequer tem objectivos)
- como ambiente de realidade virtual, SL é pobre e 'pesado' tecnicamente
- etc,...

O que é sucessiva e propositadamente (digo eu) esquecido, é que Second Life é, antes de qualquer uma destas coisas mais ou menos conhecidas, um poderoso meio de comunicação e de representação espacial.

Se entendido como meio, os paradigmas que caracterizam todos os outros produtos/ambientes não funcionam!
E nunca irão funcionar, porque os paradigmas comunicacionais e espaciais em Second Life têm que ser (e estão a ser a cada dia que passa) (re)inventados, que é uma coisa que dá um trabalhão...!

Mas vale a pena, digo eu mais uma vez, o esforço da invenção!
Por isso publicamente reafirmo que os projectos e a utilização de Second Life se deve afastar cada vez mais das réplicas da(s) realidade(s) analógica e digital.

Se assim não fôr, a persistente sentença de morte vai continuar a ser publicada ciclicamente, de cada vez que alguém entenda comparar Second Life com alguma coisa que já existe...

E, com esta e com as outras, Second Life vai já na sua terceira ou quarta morte!

13.6.08

Um problema de sombras!

A implementação em Second Life de sombras projectadas está na ordem do dia!
Há quem diga que sim, há quem diga que não senhor, obrigado.

Wagner James chama a atenção para mais uma possível 'balcanização' de Second Life com a implementação das sombras no viewer oficial, uma vez que as exigências de hardware serão ainda maiores.

Gwyneth Llewelyn, por outro lado, parece defender a dita implementação, em nome de um ambiente graficamente mais rico, mais apelativo (mais real?).

SignpostMarv Martin avança ainda com o potencial risco das referidas sombras quando usadas para prejudicar o 'vizinho': a simples construção de um objecto com grande altura colocaria o parceiro do lado literalmente 'às escuras' (o Sol e a Lua tratariam de produzir os seus efeitos).

A questão está longe de ser pacífica, e todos os argumentos parecem ser pertinentes!

Mas, uma vez mais, por trás da decisão de ter ou não ter sombras, existe uma opção clara que a Linden Lab deve assumir: deverá a representação gráfica em Second Life ser o mais realista possível?
Questões técnicas à parte (o tal risco de 'balcanização'), o que representa, do ponto de vista cognitivo, andar e sobrevoar espaços com sombras projectadas em tempo real?

A tentação da mimetização é grande, e aparenta induzir conforto.

Apesar de, do ponto de vista experimental e projectual, as sombras poderem ser uma mais-valia interessante, na prática introduzem um complexidade na composição do espaço que ultrapassa aquilo que, assim à distância, podemos imaginar...

A percepção do espaço num ambiente graficamente mais 'flat' como o que agora existe no viewer oficial nem sempre é imediata, e, por vezes, chega a ser um factor de desencorajamento.
A mesma percepção espacial com sombras exige uma maturidade e uma cultura visual e espacial que eventualmente não existe na maioria dos residentes...

Se isso funcionar, de alguma forma, como um factor 'complicador' na experiência 'virtual', então o melhor será mesmo... deixar as sombras na sombra!

E este vídeo de SignpostMarv Martin em Paris 1900 com e sem sombras explica porquê:

26.12.07

Nada como um 'mundo' aos quadradinhos!

Na sua habitual crónica 'Por outras palavras', no Jornal de Notícias, Manuel António Pina falava de 'O "lifting" nacional':
"Com uma campanha de três milhões comprada a uma agência de publicidade, o Governo quer apagar - vem no texto de apresentação da campanha - a imagem de "subdesenvolvimento, iliteracia, corrupção e recorrentes indicadores estatísticos de miséria" de Portugal. O Ministro da Economia é um 'homme du monde' e, para milagres, não vai ao Professor Karamba, vai a uma agência de publicidade. Em vez do "Abracadabra" do Professor, a agência pronuncia as palavras mágicas "West Coast of Europe" e o país transforma-se de um momento para o outro em (ainda a crer no texto de apresentação da campanha) "surf, qualidade de vida, Hollywood, criatividade, entretenimento, Los Angeles, S. Francisco, Las Vegas, Silicon Valley"..."

Mais ou menos na mesma altura em que o cronista do JN escrevia estas linhas, Jonathan Togo (o Ryan de CSI) promovia a Sacoor Brothers a caminho de Portugal para passar o Réveillon, e afirmava (segundo a revista flash!):
"Estou preparado para descobrir tudo o que há para saber sobre Lisboa. (...) Sei que Ibiza é em Portugal, portanto isso é um bom sinal! Estou à espera de comer muita paella. Além disso nunca conheci um português de quem não gostasse. (...) O Cristiano Ronaldo éportuguês?!..."

Possíveis explicações para tamanha confusão:
- J.Togo ainda não viu a campanha descrita por M.A.Pina
- a agência responsável pela campanha vendeu-a primeiro aos espanhóis e nós comprámos a dita por três milhões e em segunda mão
- o Ministério da Economia não está a conseguir 'vender' essa da 'West Coast of Europe', e baralha ainda mais os americanos
- com uma carta de apresentação a falar de "Hollywood, Los Angeles, S. Francisco, Las Vegas, Silicon Valley,..." não há Togo que resista! Até nós, portugueses desde sempre, ficamos um bocado confusos

Para eliminar estas confusões geo-territoriais... nada como um 'mundo' aos quadradinhos!!!

(ainda fará sentido o 'espaço de lugares', ou embarcamos no 'espaço de fluxos' de Manuel Castells?)

2.8.07

Sentados ou de pé?

A pergunta parece irrelevante, mas já deu origem às mais acesas discussões com vários amigos in-world. Há uns tempos estávamos precisamente a analisar o comportamento de quem chegava ao nosso ponto de convívio: todos na converseta; um grupo de "residentes" já experientes e, naturalmente, em pé.
Quando alguém de novo chegava, a questão era: senta-se ou não se senta? A experiência era divertida: aparentemente, a "idade" do residente era inversamente proporcional à necessidade de se sentar! Ou seja, os mais novatos sentavam-se logo... porque numa tertúlia destas ninguém fica de pé! E cansa à brava! O "núcleo duro" da tertúlia mantinha-se em pé, irritantemente em pé, supostamente esgotados ;) a sensação era, para os que estavam sentados, que nós estávamos de saída, que não íamos ficar por muito tempo...
Aparentemente, os residentes menos experientes mantinham uma postura bastante mais ancorada aos gestos e comportamentos da real life, e, bem educadamente, sentavam-se de imediato na busca de conforto e maior proximidade com os demais. Mesmo sabendo que não existe cansaço físico no metaverse...
A experiência foi pontual. Dali náo saíram grandes conclusões ou verdades absolutas. Os mesmos amigos que estavam presentes, nos seus próprios espaços, "plantam" cadeiras, chaise-longues, toalhas de praia, ..., coisas "confortáveis" e que utilizam regularmente! Aparentemente contraditório...

Mas esta temática voltou à minha cabeça uns tempos mais tarde. No espaço da Universidade do Porto, aqui, em cujo projecto estou envolvido, foi criado um ambiente bastante neutro e expectante para o lançamento de um Concurso de Ideias que é do conhecimento público. Na zona de chegada existia apenas uma plataforma transparente suspensa, onde não era possível "sentar".
Há uns dias, tive oportunidade de "receber" uma jovem residente (discente da U.Porto) que visitava a "ilha" pela primeira vez. Observou atentamente o minimal espaço com curiosidade, e esperei para lhe perguntar a opinião sobre o mesmo. Primeira observação: "o espaço está muito bom, mas falta aqui um local "acolhedor", onde possamos falar uns com os outros com mais conforto, sentados..."! Hellas! Imediatamente me lembei da conversa que relatei anteriormente. Esta foi a primeira necessidade da minha "jovem" visita: um espaço acolhedor, para se sentar e se sentir mais próxima dos outros.
Meu dito, meu feito: na mesma plataforma criei um "jogo do galo" em que as peças são os locais de "sentar", "cadeiras" provocatoriamente transparentes (como ilustrado acima), mas um local que tenta potenciar a aproximação entre os visitantes. Estou ainda à espera de reacções conclusivas...
Mas para mim, provada ficou a necessidade dos "mais novos" em encontrar referências espaciais semelhantes às existentes na RL, não na busca de imitações (numa perpspectiva platoniana) mas como resultado de um "envolvimento afectivo" com os objectos (perspectiva freudiana) que lhes são familiares. Tudo por uma questão de... conforto!

31.7.07

Estará Second Life vazio?

Mark Bell, da Ball State University Muncie, tentou sistematizar algumas das razões pelas quais Second Life não está vazio, em reacção a alguns artigos publicados, nomeadamente na Wired e no L.A.Times.
Pedagogicamente, parece-me oportuno referir algumas das ideias do autor.
Nos últimos dias, o número máximo de residentes online tem rondado os 45,000. Não são contabilizadas contas "vazias", mas sim número de pessoas inworld. Nas últimas 24 horas, cerca de 1 milhão de USD foram gastos em SL. Ou seja, existem pessoas ligadas, mas, superficialmente, pode parecer um "mundo virtual vazio" para alguém que olhe à distância. Esse é o problema: uma visão superficial de Second Life pode confundir a opinião pública.
Eis alguns tópicos que ficam para reflexão:
> 24/7: Second Life é um ambiente persistente, e funciona 24 horas por dia e 7 dias por semana. Certamente a sua loja em SL terá mais clientes às horas normais de expediente, mas e... às 3:00 da manhã? Existem lojas a funcionar às 5:00 da manhã! Estará o seu negócio em perigo por funcionar "apenas" 16 horas por dia?
> Gasolina, comida, alojamento: Muito do movimento de qualquer "lugar" na RL está relacionado com actividades de primeira necessidade; comer, dormir, viajar... Em Second Life não é necessário comer, nem dormir, e podemos "teleportar-nos" em 5 segundos! Ou seja, menos movimento...
> "Face to Face": em Second Life é possível estabelecer comunicação intensa com várias pessoas em simultâneo sem sair do mesmo "local", através de IM's (instant messages). Ou seja, não existe a necessidade de mobilidade para comunicar. Posso entrar num local apenas com um avatar presente, mas que está a fazer uma dezena de negócios ao mesmo tempo!
> A2A e não B2B: em Second Life existe um modelo do tipo "avatar to avatar" e não "business to business". As transacções fazem-se entre indivíduos, e não existe a percepção exterior das trocas que se processam.
> Negócios "fora do mundo": não é absolutamente necessário um login para fazer negócios em SL; com os motores de busca de Second Life e um browser, é possível transaccionar bens e serviços, sem que seja visível o "dinamismo efeverescente" dos negócios.
> Terra, muita terra: comparado com a RL, Second Life tem uma densidade populacional potencialmente reduzida; existem imensas "ilhas" propriedade de apenas um residente, sem permissão de acesso público. Uma visão global do "mundo" dá, ao observador menos atento, a sensação de uma vasta imensidão não habitada.

Tal como para Mark Bell, a minha SL está repleta de pessoas interessantes, de locais aprazíveis, de objectos fascinantes. Mas, para chegar a esta conclusão, é necessário experimentar! Uma rápida análise de números e gráficos, ou uma visão periférica do sistema, induz necessariamente em erro os menos informados. É que os paradigmas de comunicação, negócio, sobrevivência, ..., em Second Life são substancialmente diferentes. Por baixo de um simples mapa fervilha... muita vida!