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27.10.08

Cuidar do avatar pode ajudar a superar experiências traumáticas na RL?

Depois de ler o estudo da Universidade de Stanford de Nick Yee, já aqui referido, sobre o 'Proteus Effect' em Second Life, e depois de ler o post de Wagner James 'How a sexy avatar inspired a real life survivor', fiquei a conhecer a história de CeNedra Rivera que, no seu blog, explica tudo:

Depois de ter passado por uma experiência traumática de abuso sobre si e o seu filho na 'vida real', passou a utilizar Second Life como hobby, o que lhe tem permitido 'viver' uma vida independente e na qual investe muito do seu tempo a tratar do aspecto físico do seu avatar.

Esse facto, segundo CeNedra, tem feito com que a sua auto-estima 'real' tenha aumentado, e os seus receios, resultado de uma vida atribulada, tenham diminuído.

"Ao longo deste ano em que tenho 'vivido' em Second Life, tenho tido muitos mais encontros na RL. Pode parecer pouco importante, mas para mim é muito significativo. Dou por mim a combinar saídas com os meus colegas ou amigos. Mesmo quando vou às compras, reparo que passo a dar mais atenção a coisas que, habitualmente, não daria."

O artigo de Nick Yee já indiciava o que CeNedra aqui confirma: as pessoas que mais 'investem' no aspecto dos seus avatares em Second Life, têm tendência a melhorar a sua auto-estima e a sua auto-confiança na 'vida real'.

No caso de CeNedra, o efeito é também terapêutico, numa fase de recuperação de um trauma que, habitualmente, conduz ao isolamento e à perda de confiança. Talvez por isso, CeNedra faça questão, no seu blog, de alertar todas as mulheres para os sinais mais evidentes de abusos 'reais', para que não haja muitos casos como o seu...

4.4.08

Quando o Virtual tem impacto no Real

Jeremy Bailenson, da Stanford University, publicou em Fevereiro com a sua equipa um artigo sobre o impacto que os 'Mundos Virtuais' podem ter no 'Mundo Real'.
Andrea Foster, do 'The Chronicle of Higher Education', escreveu sobre o trabalho de Bailenson:

"Esqueçam os comprimidos, a hipnose e a meditação. Perder peso ou aumentar a auto-confiança pode ser alcançado criando um avatar e 'vivendo' num mundo virtual, afirmou Jeremy Bailenson.

O director do Virtual Human Interaction Lab da Standord University explorou as formas de como os comportamentos online se espalham no 'mundo real'. Habitualmente, as pessoas assumem que as suas actividades online resultam da sua experiência real. Mas Bailenson e a sua equipa demonstraram o contrário. As suas experiências revelaram, por exemplo, que as pessoas que vêm o seu avatar ganhar peso por se alimentarem em excesso, estão mais aptas para adoptarem um plano de perda de peso na realidade.

O artigo de Bailenson apresentado em Stanford em Fevereiro impressionou os psicólogos e é considerado promissor para a melhoria da qualidade de vida. Bailenson alertou, no entanto, para o uso perverso deste fenómeno: os marketeers, por exemplo, podem usar os mundos virtuais para tentar manipular o que as pessoas consomem ou as suas preferências políticas.

"A nossa identidade virtual não está separada da nossa identidade física", terá afirmado Bailenson.
(...)
No Lab de Stanford, a equipa de Bailenson (...) acompanham as experiências de imersão das pessoas que vêm e manipulam os seus avatares duma forma, por vezes, mimética. Os investigadores registam as acções dos avatares, e analisam os comportamentos das pessoas depois da experiência de imersão.
(...)
Noutras experiências, Bailenson verificou que as pessoas com uma aparência dita 'normal' tendem a definir avatares muito 'belos' na sua vida virtual. Depois, recorrem a serviços de 'dating' e escolhem potenciais parceiros a partir de fotos tipo-passe. As suas próprias imagens são muito mais atraentes do que as das pessoas que definiram avatares menos atraentes, afirma Bailenson.
(...)
[falando doa perigos de manipulação] Bailenson prevê a utilização massiva dos mundos virtuais regida por interesses puramente comerciais para vender produtos.
Como exemplo, traça um hipotético cenário de uma mulher que passa tempo em Second Life. No seu 'perfil' em SL afirma que gosta de cabelos 'rasta'. Um comercial de uma empresa cria um avatar com longos cabelos 'rasta' e aproxima-se do avatar da mulher tentando vender os seus produtos.
Recentemente, Bailenson conduziu uma experiência que demonstrou que a preferência e a memórias das pessoas em relação a um produto aumenta quando visualizam o seu avatar com esse produto."

O artigo de Bailenson e da equipa de Stanford teve eco nos media, e direito à maior atenção da comunidade académica.
Aparentemente, a linha orientadora da investigação vem na linha de outras bem mais antigas (como a de Sherry Turkle, por exemplo). Se Turkle estudou em detalhe as identidades múltiplas em contextos grupais online, agora a 'novidade' reside na tentativa de detectar comportamentos concretos na 'vida real' que derivem da experiência virtual...